quarta-feira, 8 de maio de 2013

Carta Mensal - Maio de 2013

Tournay, 30 de abril de 2013.

A vocês todos que buscam a paz,
                        Paz!
Neste mês de maio, proponho como tema de nossa oração pela paz uma situação terrível e dolorosa, fonte de muito sofrimento : aquela das mulheres que sofrem violência sexual em situações de conflito. Se, mesmo em tempos de paz, as mulheres são submetidas a todo tipo de violência (as estimativas são de sete para cada dez mulheres !), esta situação agrava-se ainda mais em tempo de guerra.
Mulheres de todas as idades sofrem sistematicamente este tipo de violência nas mãos de forças militares e rebeldes. Na maior parte dos casos, a violência sexual faz parte de uma estratégia deliberada para humilhar os adversários e semear o pânico entre a população civil. Outras vezes, são justamente as pessoas encarregadas de sua proteção, os responsáveis por esta atrocidade.
A violência sexual como tática de guerra é uma prática que remonta há séculos e que é constatada onde um conflito se instaura. Calcula-se que entre 20.000 a 50.000 mulheres foram violadas durante o conflito na Bósnia, no começo dos anos 90 ; já, durante o genocídio de Ruanda, em 1994, as estimativas situam-se entre 250 mil a 500 mil mulheres ! Na Republica Democrática do Congo, desde que o conflito armado se instalou neste país, em 1998, mais de 200 mil mulheres sofreram violência sexual : calcula-se cerca de 1.100 a cada mês, 36 casos por dia !  A violência sexual também foi uma das características da guerra civil na Libéria, entre 1989 a 2003, assim como é largamente praticada no conflito armado na região de Darfour, no Sudão.
Esta situação se agrava ainda mais dado o muro de silêncio que é erguido : raramente escutam-se as vítimas, raramente julgam-se aqueles que cometeram esse crime horrendo. Governos e grupos militares ignoram e toleram tais práticas, considerando-as como normais.
Neste contexto, nossa oração torna-se um grito profético, denunciando aos céus esta injustiça do mundo dos homens : só haverá paz na terra quando as mulheres forem plenamente respeitadas em sua dignidade e não forem mais consideradas como soldo ou espólio de guerra.
Rezemos assim :
Ó Deus de ternura, tu que conheces o sofrimento do teu povo e escutas os seus clamores, atende nossas preces em favor das mulheres que sofrem violência sexual nas tantas guerras deste mundo. Que suas vozes sejam ouvidas, que elas recebam todo o apoio necessário para se recuperarem deste trauma. Que estes crimes sejam julgados e que as autoridades dêem a atenção necessária para erradicar esta prática. Assim, homens e mulheres viverão em igualdade e paz nesta terra que criastes para todos!  Amém.

Com amizade, na alegria do Espírito que se derrama generoso sobre nôs! 
D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França 
P.S.: Ajude a fortalecer esta rede de oração para a paz, repassando esta carta a seus amigos.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Carta Mensal - Abril de 2013

Tournay, 31 de março de 2013.

A vocês todos que buscam a paz,
                        Paz!
No dia onze deste mês de abril, celebramos o quinquagésimo aniversário da publicação de um dos documentos que mais contribuíram para a paz mundial em nosso tempo. Trata-se da encíclica “Pacem in Terris” (Paz na Terra), do Papa João XXIII, que morreria pouco  menos de dois meses depois, a 3 de junho de 1963. Dirigida não somente à Igreja, mas também “a todas as pessoas de boa vontade” – fato inédito num documento papal até então –, a encíclica se propõe a refletir sobre “a paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade e liberdade ». No seu primeiro parágrafo, deixa claro a sua proposta : “A paz na terra, anseio profundo de todos os homens de todos os tempos, não se pode estabelecer nem consolidar senão no pleno respeito da ordem instituída por Deus” (§ 1). E no seu desenvolvimento, mostrará que esta ordem querida por Deus (§ 1-7) deve se manifestar no respeito dos direitos e deveres humanos (§ 8-45), por uma relação democrática entre os cidadãos de uma mesma nação (§ 46-79), por relações de cooperação e de dialogo entre as nações (§ 80-128) e pela participaçao de todos em vista de uma convivência unitária de alcance mundial (§ 129-144).

No contexto da época, no auge da guerra fria e da ameaça de uma guerra atômica entre Estados Unidos e União Soviética, “Pacem in Terris” deu uma importante contribuição para a paz, contribuindo para a superação do impasse criado. O Papa chamou a humanidade à consciência ao afirmar “que as eventuais controvérsias entre os povos devem ser dirimidas com negociações e não com armas” (§ 125). João XXIII proclamou claramente que “não é mais possível pensar que nesta nossa era atômica a guerra seja um meio apto para ressarcir direitos violados” (§ 126). E não hesitou em denunciar os perigos da corrida armamentista e da doutrina da dissuasão nuclear: “o resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio” (§ 111).

“Pacem in Terris” deve ser també compreendida como o testamento espiritual deste papa admirável à Igreja, contribuindo para colocar a paz no centro da consciência cristã, como responsabilidade de cada batizado e da Igreja em seu todo (§ 145-171). Rezemos, particularmente, nesta intenção, para que a paz esteja não somente no centro das preocupações dos papas e dos documentos da Igreja, mas de cada cristão e de cada homem de boa vontade. E o façamos com as próprias palavras de João XXIII:

Senhor Jesus Cristo Ressuscitado, que dissestes aos teus discípulos: "Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá" (Jo 14,27), afasta dos corações dos homens tudo quanto pode pôr em perigo a paz, transformando a todos em testemunhas da verdade, da justiça e do amor fraterno. Ilumina com tua luz a mente dos responsáveis dos povos, para que, junto com o justo bem-estar dos próprios concidadãos, lhes garantam o belíssimo dom da paz. Inflama, Cristo, a vontade de todos os seres humanos para abaterem barreiras que dividem, para corroborarem os vínculos da caridade mútua, para compreenderem os outros, para perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias. Sob a inspiração da tua graça, tornem-se todos os povos irmãos e floresça neles e reine para sempre essa tão suspirada paz (Cf. § 169-170). Amém.

Com amizade, ainda na alegria da Páscoa!

D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

terça-feira, 12 de março de 2013

Carta Mensal - Março de 2013


Tournay, 28 de fevereiro de 2013.

A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,

                        Paz!

O massacre na escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, em 14 de dezembro de 2012, com a morte de 26 pessoas – 20 crianças com idades entre 6 e 7 anos e seis adultos –, abalou os Estados Unidos e reabriu o debate sobre o controle de armas. Desde o final da década de 90, a sociedade civil tem-se articulado mundialmente  para prevenir a proliferação e utilização de armas pequenas, através da Rede de Ação Internacional Sobre Armas Pequenas (IANSA), que não tem medido esforços para organizar um tratado mundial de controle deste tipo de armas. Trata-se de um tema que suscita muitas discussões e que, por isso, pede a força de nossa oração, para que as consciências se iluminem.

As armas de fogo pequenas e leves – tais  como revólveres, pistolas, carabinas, rifles, etc – são responsáveis pela morte de 600 mil pessoas, a cada ano no mundo. Segundo o Small Arms Survey, de Genebra, em cerca de 639 milhões de armas pequenas em circulação em 110 países, 37,8% pertencem às Forças Armadas, 2,8% às polícias, e os restantes 59,2% nas mãos da população civil.
Ao contrário das drogas, que são produzidas e comercializadas ilegalmente, as armas possuem uma origem legal, mas em determinado momento, tornam-se ilegais. Assim o controle da oferta do mercado legal possibilitará um maior controle do comércio ilegal. Daí a necessidade de combate ao contrabando e vigilância sobre produção, venda, exportação e importação, para evitar desvios O gerenciamento de informações, no interior de cada país, mas também entre nações, será importante para controlar estas armas. Acordos regionais e internacionais, têm obtido sucesso na redução de armas de fogo em circulação.

 Um outro ponto é o controle da procura. Medidas de limitação da compra de armas e campanhas de conscientizaçao do publico sobre os perigos das armas, serão importantes para efetivar este aspecto. Países como Brasil, Japão, Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e África do Sul implementaram leis rígidas de controle de armas. Em alguns países, entretanto, as armas de fogo são tratadas como um produto qualquer, sem exigir maiores cuidados e controles. Segundo estudos do Viva Rio, o risco de homicídio por arma de fogo em casas com algum tipo de armamento é sete vezes maior do que em residências cujos moradores não têm nenhuma arma.

O controle dos estoques e a destruição dos excedentes, com programas de entrega voluntária constituem um terceiro ponto da agenda.

Para que estas propostas sejam concretizadas, rezemos assim:

Ó Deus, promessa de paz, teu filho Jesus, no momento de sua prisão, ordenou a Pedro de guardar sua arma, lembrando que aqueles que usam armas pelas armas morrerão.  Inspira os povos e nações para adotarem politicas de controle de armas. Assim, a humanidade poderá cantar com o salmista: há aqueles que pôem sua confiança nas armas, « nós porem invocamos o nome do Senhor » (Sl 20,8). Assim seja!

 Com amizade,D. Irineu Rezende Guimarães

monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carta Mensal - Fevereiro de 2013


Tournay, 28 de janeiro de 2013.

A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,

                        Paz!

No dia 12 de fevereiro próximo, será celebrada a Jornada Mundial pelas Crianças Soldado, lembrando o aniversário da entrada em vigor, em de fevereiro de 2002, do Protocolo Facultativo à Convenção dos Direitos da Criança, ratificado por cerca de 130 países, proibindo o recrutamento forçado e a utilisação de menores de  18 anos em conflitos armados.

  Entretanto, existem ainda cerca de 250 mil crianças associadas às forças e aos grupos armados, atuando como soldados, cozinheiros, mensageiros ou mesmo para fins sexuais, seja em grupos armados, mas também em exércitos governamentais. Mais de cinquenta organizações continuam a recrutar crianças-soldado nos seguintes países: Afeganistão, Chade, Colômbia, Filipinas, Iêmen, Índia, Iraque, Israel e territórios ocupados, Nepal, Paquistão, Republica Centro-Africana, Republica Democrática  do Congo,  Sri-Lanka, Somália, Sudão, Uganda e Tailândia. Muitos deles são recrutados contra sua vontade e não podem mais deixar suas   unidades. A maioria deles tem idade entre 15 a 18 anos, mas  há casos de recrutamento de crianças de 9 anos.

As mobilizações em curso propõem :

a)      A proibição de qualquer tipo de recrutamento de menores de 18 anos em forças armadas, mesmo voluntário, não importando a função, ainda que não portem armas;

b)      A proibição de qualquer tipo de propaganda de recrutamento militar de menores de 18 anos;

c)      A liberação de menores de exércitos e grupos armados, os quais devem ser apoiados pela sociedade civil;

d)     A penalização de estados, grupos armados e indivíduos que recrutam menores de 18 anos, por uma Corte Penal, nacional ou internacional; e a adoção de sanções (econômicas, bloqueio de contas, etc.) pela comunidade internacional e pelo Conselho de Segurança da ONU;

e)      Proteção, assistência e apoio para esses menores, com direito a um tratamento médico e psicológico, além de acesso ao sistema educativo e professional;

f)       Concessão de asilo politico aos refugiados ;

g)      Aumento dos fundos para os programas de prevenção e de reintegração ; 

h)      Bloqueio da exportação de armas às regiões de conflito conhecidas pela existência de crianças-soldado.  

Para que estas propostas sejam concretizadas, rezemos assim:

Ó Deus, mãe dos pequeninos, dirige o teu olhar de compaixão e ternura para as crianças a quem o mundo roubou a infância e as utilisa como soldados. Vem logo em nosso socorro! Ensina-nos a acolher os pequeninos, como fez teu filho Jesus, e a respeitar e promover seus direitos. Assim nossa terra viverá em paz e da boca dos peaueninos brotará um canto de louvor a teu nome! (Cf. Sl 8,3). Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Com amizade,
D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Carta Mensal - Janeiro de 2013



Tournay, 20 de dezembro de 2012.
A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
O Papa Bento XVI escolheu como tema para este 1º de janeiro de 2013, Dia Mundial da Paz, “Bem-aventurados os obreiros da paz” (Mt 5,9). Assim quero convidar vocês a rezar para que estas palavras do Cristo se concretizem em cada um de nós, em todos os seguidores do Cristo, em todos que buscam a Deus, e em todos os homens e mulheres de boa-vontade.
Mesmo em meio às tensões que vivemos, o Papa recorda as “as inúmeras obras de paz” que “testemunham a vocação natural da humanidade à paz”: “Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida” (nº 1). Meditando a bem-aventurança de Jesus, Bento XVI conclui “que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana” (nº 2). De um lado, “a paz implica principalmente a construção duma convivência humana baseada na verdade, na liberdade, no amor e na justiça. (...) Sem a verdade sobre o homem, inscrita pelo Criador no seu coração, a liberdade e o amor depreciam-se, a justiça perde a base para o seu exercício” (nº 3). Ao mesmo tempo, “para nos tornarmos autênticos obreiros da paz, são fundamentais a atenção à dimensão transcendente e o diálogo constante com Deus, Pai misericordioso, pelo qual se implora a redenção que nos foi conquistada pelo seu Filho Unigénito” (nº 3). O Papa sinaliza três canteiros de ação para os obreiros da paz, no atual momento da humanidade. Em primeiro lugar, a promoção da vida em todas as suas dimensões: “A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida” (nº 4). Em segundo lugar, a construção do bem da paz através de um novomodelo de desenvolvimento e de economia (nº 5). Em terceiro lugar, Bento XVI evoca a educação para uma cultura de paz, ressaltando o papel da família, das comunidades cristãs e também das instituições culturais, escolásticas e universitárias (nº 6). Finalmente, Bento XVI realça a importância de desenvolvemos uma pedagogia da paz, para “ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância”. Para isso, “é preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança” (nº 7) (Ver o texto na íntegra em http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/peace/documents/hf_ben-xvi_mes_20121208_xlvi-world-day-peace_po.html).
Para que a estas reflexões do Papa Bento XVI sejam acolhidas por todos, rezemos assim, utilisando as suas palavras:

Ó Deus de ternura, teu Filho Jesus proclamou felizes os obreiros da paz (Mt 5,9). Faze de nós, seus discípulos, “instrumentos da sua paz, a fim de levar o seu amor onde há ódio, o seu perdão onde há ofensa, a verdadeira fé onde há dúvida”. Ilumina “os responsáveis dos povos para que, junto com a solicitude pelo justo bem-estar dos próprios concidadãos, garantam e defendam o dom precioso da paz”. Inflama “a vontade de todos para superarem as barreiras que dividem, reforçarem os vínculos da caridade mútua, compreenderem os outros e perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias, de tal modo que, em virtude da sua acção, todos os povos da terra se tornem irmãos e floresça neles e reine para sempre a tão suspirada paz” (7). Amém.
Com os votos de um ano novo abençoado!
D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carta Mensal - Dezembro de 2012

Tournay, 30 de novembro de 2012.

A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
As manifestações recentes de violência ocorridas entre as forças israelenses e grupos palestinos nos convidam, mais uma vez, a rezar, neste mês de dezembro, pela paz na terra onde Jesus nasceu. Mesmo que um cessar-fogo se impôs, todos reconhecemos a necessidade de uma solução mais duradoura para este conflito que traz sofrimentos sem conta para estes dois povos.
A atual situação bem mostra os impasses do processo de paz. Enquanto Israel prossegue suas atividades de colonização nos terrritórios ocupados, as várias facções palestinas permanecem divididas, sem que nenhum progressos significativo nas negociações: israelenses e palestinos não realizam conversações de paz desde setembro 2010. Os palestinos recusam sentar na mesa enquanto a colonização prossegue. A aceitação pela ONU da Palestina como estado observador não membro, no dia 29 de novembro p. p., suscitou o anúncio, por parte de Israel, de três mil novas habitações. Os dois campos se contentaram com palavras sem concretizar, portanto, atos concretos em favor de um diálogo construtivo. A fragilização dos processos de paz deixa livre o campo aos partidários da violência, como efetivamente aconteceu nos últimos tempos. No entanto, uma solução em nível militar ou por enfrentamento de forças não contribui em nada para a resolução do conflito. Somente pela justiça, o respeitos dos direitos humanos, o diálogo e o respeito dos acordos internacionais poderá construir uma paz duradoura e estável.
Em nível internacional, algumas iniciativas merecem ser em assinaladas. Em 2002, foi constituído um grupo conhecido como “Quarteto”, composto pelos Estados Unidos, Rússia, União Européia e ONU, que se propõe como mediador. Em 2003, a Iniciativa de Genebra reuniu lideranças expressivas os dois lados. As alternativas sugeridas seguem a lógica “dois estados, dois povos”, com a partilha da soberania de Jerusalém, capital dos dois estados. Em nível local, existem vários grupos e atores que encontraram caminhos de uma convivência pacífica, como por exemplo iniciativas na área educacional ou dos movimentos de mulheres. Importantes são os movimento de desobediência civil, tanto entre israelenses como palestinos, que se recusam a participar de ações armadas ou violentas. De cada lado, existem movimentos organizados, mas também lideranças comunitárias, que têm optados por soluções pacíficas, inclusive fazendo saber às suas lideranças políticas de suas reivindicações. Sem dúvida nenhuma, a paz passa também pelo fortalecimento destas iniciativas locais e internacionais. A solução deste conflito que dura 65 anos será significativo não somente para os dois povos envolvidos, mas para toda a humanidade.
Para que a paz se concretize na terra onde Jesus nasceu, rezemos assim:

Ó Deus de ternura, que desejas  que teu povo habite um oásis de paz (Cf. Is 32,18), olha para a terra onde teu filho Jesus nasceu. Que os dois povos que lá habitam, israelenses e palestinos, possam encontrar caminhos de uma convivência pacífica, compartilhando a mesma terra, como dois Estados autônomos e respeitosos um do outro. Fortalece todas as pessoas e grupos que manifestam disposição ao diálogo e desarma os que ainda acreditam numa solução baseada nas arma. E que a paz prevaleça na terra! Amém.   
Com amizade,
 D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Carta Mensal - Novembro de 2012

Tournay, 30 de outubro de 2012.

            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            Um ano se passou desde o 27 de outubro de 2012, quando o Papa Bento XVI reuniu líderes religiosos do mundo inteiro, numa grande jornada de reflexão, de diálogo e de oração para a paz e a justiça no mundo. Relembrando este acontecimento, convido vocês a retomar esta intenção de rezar para que as religiões, todas as religiões, sejam fiéis a esta sua vocação de promover a paz.
Se como toda instituição humana, as religiões também são tocadas pela violência, este fato não nos diz tudo da história das religiões. É necessário reconhecer que as religiões muito contribuíram para o processo de socialização e de humanização. Como alguns nos recordam, elas são o «jardim da cultura da paz» e nos trazem «um capital de valores pacíficos». Mesmo as críticas que fazemos às religiões sobre eventuais falhas, se situam à partir dos valores que elas nos legaram. Faríamos uma caricatura do religioso se esquecêssemos tudo que as religiões fazem pela paz e para transformar a violência do mundo.
Podemos encontrar em todas as tradições religiosas uma série de ensinamentos e práticas não-violentas, que constituem o fundamento de nossa compreensão de justiça e de paz. Primeiramente, elas ensinam a humanidade uma profunda reverência pela vida e o desejo de evitar o mal, quando afirmam « tu não matarás! Tu não farás mal a ninguém !». Elas também nos dizem: « tu não roubarás! Tudo aquilo que queres que os homens te façam, faze tu a eles! », nos propondo assim um ideal de harmonia social e de vida pacífica com nossos semelhantes. Elas nos incitam a viver na veracidade, a falar a verdade e a agir de boa fé, quando nos recordam «tu não mentirás!». Finalmente, elas nos dão um quadro para «respeitar e amar uns aos outros», encorajando-nos ao dom de si e à solidariedade, sobretudo em relação àqueles que mais necessitam.
Este tesouro não-violento das religiões é guardado, como nos lembra São Paulo, em vasos de argila ! (Cf. 2 Co 4,7). As religiões nos recordam nossa ambivalência e ambiguidade, mas também nossas potencialidades e possibilidades, podendo nos mostrar o pior, mas também o melhor da humanidade !
O teólogo suíço Hans Küng nos adverte que não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. O papa João Paulo II, na mesma linha, propunha aos crentes de todos os credos se unirem na construção da paz. Para que isto se concretize, rezemos assim:

            Ó Deus de ternura, tu colocaste no coração da humanidade o desejo profundo da paz e lhes destes todas condições para concretizá-la. Assim, teu nome é glorificado quando a paz e a justiça são promovidas! Concede aos crentes e lideranças de todas as tradições religiosas de permanecerem fiéis a esta vocação pacífica e de trabalharem juntas para que haja paz na terra. A Ti, louvor e glória para sempre!
            Com amizade, 
D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França