segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Carta Mensal - Novembro de 2012

Tournay, 30 de outubro de 2012.

            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            Um ano se passou desde o 27 de outubro de 2012, quando o Papa Bento XVI reuniu líderes religiosos do mundo inteiro, numa grande jornada de reflexão, de diálogo e de oração para a paz e a justiça no mundo. Relembrando este acontecimento, convido vocês a retomar esta intenção de rezar para que as religiões, todas as religiões, sejam fiéis a esta sua vocação de promover a paz.
Se como toda instituição humana, as religiões também são tocadas pela violência, este fato não nos diz tudo da história das religiões. É necessário reconhecer que as religiões muito contribuíram para o processo de socialização e de humanização. Como alguns nos recordam, elas são o «jardim da cultura da paz» e nos trazem «um capital de valores pacíficos». Mesmo as críticas que fazemos às religiões sobre eventuais falhas, se situam à partir dos valores que elas nos legaram. Faríamos uma caricatura do religioso se esquecêssemos tudo que as religiões fazem pela paz e para transformar a violência do mundo.
Podemos encontrar em todas as tradições religiosas uma série de ensinamentos e práticas não-violentas, que constituem o fundamento de nossa compreensão de justiça e de paz. Primeiramente, elas ensinam a humanidade uma profunda reverência pela vida e o desejo de evitar o mal, quando afirmam « tu não matarás! Tu não farás mal a ninguém !». Elas também nos dizem: « tu não roubarás! Tudo aquilo que queres que os homens te façam, faze tu a eles! », nos propondo assim um ideal de harmonia social e de vida pacífica com nossos semelhantes. Elas nos incitam a viver na veracidade, a falar a verdade e a agir de boa fé, quando nos recordam «tu não mentirás!». Finalmente, elas nos dão um quadro para «respeitar e amar uns aos outros», encorajando-nos ao dom de si e à solidariedade, sobretudo em relação àqueles que mais necessitam.
Este tesouro não-violento das religiões é guardado, como nos lembra São Paulo, em vasos de argila ! (Cf. 2 Co 4,7). As religiões nos recordam nossa ambivalência e ambiguidade, mas também nossas potencialidades e possibilidades, podendo nos mostrar o pior, mas também o melhor da humanidade !
O teólogo suíço Hans Küng nos adverte que não haverá paz no mundo sem paz entre as religiões. O papa João Paulo II, na mesma linha, propunha aos crentes de todos os credos se unirem na construção da paz. Para que isto se concretize, rezemos assim:

            Ó Deus de ternura, tu colocaste no coração da humanidade o desejo profundo da paz e lhes destes todas condições para concretizá-la. Assim, teu nome é glorificado quando a paz e a justiça são promovidas! Concede aos crentes e lideranças de todas as tradições religiosas de permanecerem fiéis a esta vocação pacífica e de trabalharem juntas para que haja paz na terra. A Ti, louvor e glória para sempre!
            Com amizade, 
D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Carta Mensal - Outubro de 2012

Tournay, 25 de setembro de 2012.

            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            No próximo dia 8 de outubro, em Oslo, Noruega, começarão os diálogos de paz entre o governo colombiano e as guerrilhas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Com a ajuda de países como Venezuela, Noruega e Cuba, uma nova etapa se abrirá, decisiva para o povo colombiano. Convido todos vocês a sustentar com nossas preces este processo importante que pode por fim acerca de 50 anos de conflito armado neste país.
            Já há várias décadas que se ensaiam processos de pacificação. Durante a presidência de Belisario Betancur (1982-1986), foi possível desmobilizar 10 % das FARC, as quais criaram um novo partido político, a União Patriótica (UP); mas  o assassinato de cerca de 3 mil de seus membros, estimulou ainda mais a guerra civil. Grupos guerrilheiros, como o Movimento 19 de Abril (M-19), Exército Popular Revolucionário (EPR), Quintín Lame e Corrente de Renovação Socialista, depuseram armas sob a presidência de César Gaviria (1990-1994). A constituição de 1991 alargou as possibilidades de participação e reforçou o estado de direito. O presidente Ernesto Samper (1994-1998) ensaiou um diálogo entre o Exército de Libertação Nacional (ELN) e representantes da sociedade civil colombiana, sem conseguir, porém, resultados concretos. O presidente Andrés Pastrana (1998-2002) propôs negociações em 1999, com as FARC, que colocaram como condição a desmilitarização de uma zona de  42.000 km2, superfície equivalente à Suíça! Esta nova etapa de negociações, promovida pelo atual presidente Juan Manoel Santos, encontra um novo contexto favorável, tais como um forte sustento internacional, um amadurecimento das partes envolvidas e sobretudo uma pauta mais definida de  negociações, composta de cinco pontos.
            O primeiro destes toca a questão de fundo da guerra civil, o problema agrário, num esforço de superar a forte disparidade fundiária (dados de 2003 indicam que apenas 0,4% da população possui 61,2% das terras) e fomentar o desenvolvimento rural. O segundo ponto atinge o plano político, tais como garantias para o exercício da oposição política e para a participação cidadã. O terceiro ponto diz respeito mesmo ao fim do conflito armado, deposição de armas e integração dos cerca de 9 mil combatentes das FARC na vida civil. O quarto ponto, nevrálgico, tratará da busca de soluções para o problema do narcotráfico, o qual financia, em grande parte, os paramilitares (grupos como Morte aos Sequestradores (MAS) e Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), atores não-negligenciáveis do conflito. O quinto e último ponto aborda o o direito à indenização às vítimas da violência, com o consequente esclarecimento da verdade: entre 1985 e 2005, calculam-se cerca de 250 mil mortos e mais de 3 milhões de pessoas obrigadas a abandonarem suas moradias.
            Para que isto se concretize, rezemos assim:
            Ó Deus de ternura, que enviaste teu filho Jesus para fazer a paz entre toda a criatura, derrama generoso teu Espírito sobre todo o povo colombiano e sobre todos os participantes das negociações que visam por fim ao conflito neste país. Que tenham abertura de espírito para dialogar, profundidade para abordar as questões e coragem necessária para encontrar soluções e firmar uma paz verdadeira e estável. Por Cristo, teu Filho e nosso Senhor!
            Com amizade, 
D. Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, prior da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Carta Mensal - Setembro de 2012

Tournay, 15 de agosto de 2012.

            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            No próximo dia 21 de setembro, o mundo todo celebrará o “Dia Mundial da Paz”, instituído pela ONU desde 1982 e celebrado nesta data deste 2002. O tema proposto para este ano é “Uma paz sustentável para um futuro sustentável”, numa linha de continuidade com a Conferência Rio+20, realizada no mês de junho deste ano, cujo tema “O futuro que desejamos” refletiu e avaliou caminhos do desenvolvimento sustentável para o planeta.
            Esta temática do “Dia Mundial da Paz” nos permite refletir dois aspectos importantes da construção da paz. O primeiro é este de uma paz sustentável. A paz que queremos não pode ser apenas o intervalo entre duas guerras, uma paz de verniz: ela precisa e deve ser uma paz estável, capaz de se estabelecer em meio a todas as tensões da sociedade internacional. O futuro não necessita ser de medo, de miséria ou destruição! Nós temos hoje uma série de instrumentos que nos permitem de reorganizá-lo de outra forma. Segundo o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que propôs este tema, “é impossível pensar em construir um futuro sustentável se não houver uma paz sustentável. Os conflitos armados atacam os pilares mesmos do desenvolvimento sustentável, privando as pessoas da oportunidade de se desenvolver, de criar oportunidades de trabalho, de salvaguardar o ambiente, de combater a pobreza, de reduzir o risco de desastres, de avançar na igualdade social e de assegurar que todo o mundo tenha o suficiente para comer”. A prevenção, resolução e reconciliação dos conflitos armados não é apenas um problema político ou da diplomacia internacional, mas uma questão que diz respeito a cada ser humano, a questão mais democrática possível, já que diz respeito à existência e à segurança da humanidade.
            O segundo aspecto é o da importância da gestão dos recursos naturais na construção desta paz sustentável. Nós sabemos que a causa profunda de muitos conflitos está relacionada diretamente com a posse de valiosos recursos naturais, como petróleo, água, diamantes, ouro ou madeira. A forma pela qual estes recursos são geridos é crucial para manter a segurança e a paz da humanidade. Sem uma gestão responsável destes recursos, a vida não será possível para grande parte da humanidade. Trata-se de lutar para que os recursos naturais sejam protegidos e estimados em lugar de serem usados para financiar guerras, para que as crianças podem ser educadas na escola e não ser recrutadas em exércitos, para que as desigualdades econômicas e sociais sejam resolvidas por diálogo em vez de violência.
            Os dois aspectos são profundamente relacionados. Não podemos conceber um futuro sustentável se ele não for acompanhado de uma paz sustentável. Da mesma forma, uma paz sustentável deve ser construída com um desenvolvimento sustentável. O Dia Mundial da Paz constitui uma valiosa oportunidade a todos nós, cidadãos do mundo inteiro, para refletir sobre a maneira pela qual nós podemos contribuir para garantir que os recursos naturais sejam geridos de maneira sustentável, reduzindo assim as possibilidades de conflitos e abrindo o caminho para um futuro sustentável.
            Para que isto se concretize, rezemos assim:
            Ó Deus de ternura, tu queres estabelecer com a humanidade inteira uma aliança de paz. Tu nos confiaste a criação e colocaste em nossas mãos a responsabilidade de conduzi-la a seu pleno desenvolvimento. Dá-nos, pois, teu Santo Espírito para que possamos aprender a cuidar dos bens da tua criação, de maneira que eles sejam fonte de paz e garantia de um futuro de vida para todos. Dá-nos a graça de sermos artesão de uma paz sustentável para que gozemos todos de um futuro sustentável! Por Cristo, teu Filho e nosso Senhor!
            Com amizade,
D. Irineu Rezende Guimarães, O. S. B.

sábado, 4 de agosto de 2012

Carta Mensal - Agosto de 2012

Tournay, 25 de julho de 2012.
            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            Neste mês de agosto, celebramos o triste aniversário das bomba atômicas de Hiroshima (06/08/1945) e Nagasaki (09/08/1945), quando morreram 210 mil pessoas, ou pela explosão ou em consequência das radiações, civis em grande parte. Contudo, a tragédia de Hiroshima e Nagasaki, longe de significar o fim das armas atômicas, fez a humanidade mergulhar numa terrível e atroz corrida pelo nuclear. Hoje, ainda, com os vários tratados existentes, ainda restam cerca de vinte mil bombas, o equivalente a 600 mil bombas como aquelas de Hiroshima e Nagasaki! Destas, cerca de 1.800 ogivas estão em estado de alerta, prontas para serem acionadas!
            Assim, para que a humanidade não repita o horror e o sofrimento causados pelas armas atômicas, convido vocês a rezar pelo desarmamento nuclear total, condição essencial de uma paz verdadeira. Assim nos unimos às diversas manifestações mundiais nesta ocasião e somamos força à  Campanha Internacional para Abolição de Armas Nucleares (http://www.icanw.org). Eis alguns argumentos utilizados nesta luta e que podem sustentar nossa oração:
            Em primeiro lugar, ar armas nucleares não discriminam entre civis e militares, podendo uma única bomba, em um só golpe, devastar uma cidade ou até mesmo uma nação. Elas são particularmente perigosas, dada a possibilidade de serem disparadas acidentalmente, devido a erro técnico ou humano.  A posse de armas nucleares por alguns países é um estímulo constante para que outros também procedam a esforços para possuí-las, como o ocorrido, por exemplo, com as duas Coreias, que viram na presença de armas nucleares americanas uma razão para se lançarem no nuclear. As armas nucleares constituem uma ameaça constante de aniquilação do planeta, de contaminação radioativa e de inverno nuclear, além de intensificarem a desconfiança entre as nações, gerando um clima de tensão e medo. De forma alguma, as armas nucleares garantem a paz!
            As armas nucleares são caras e absorvem enormes recursos econômico, que poderiam ser aplicados em outras áreas, como saúde e educação. Somente o gasto anual dos Estados Unidos em armas nucleares, cerca de 40 bilhões de dólares, seria o suficiente para manter o acesso universal a educação básica, cuidado médico básico, alimentação, água potável e saneamento. Em nível de segurança pública, as armas nucleares são inúteis, não podendo serem usadas contra grupos terroristas, crime organizado, ou traficantes de drogas, nem tampouco num campo de batalha.
            Negociações e tratados de outros sistemas de armas, como armas químicas, armas biológicas e minas terrestres, mostram como a eliminação das armas restantes é fisicamente e praticamente realizável.  Para que isto se concretize, rezemos assim:
            Ó Deus de ternura, tu criaste o homem e a mulher para que conduzissem a criação pelos caminhos da vida e do crescimento. Contudo, a humanidade afastou-se deste caminho e passou a conceber armas terríveis, de mais em mais. Que o Espírito do teu Filho Jesus, príncipe da paz, ele que desarmou Pedro, inspire governantes e nações a se colocarem de acordo para a eliminação das armas atômicas. Assim, este perigo terrível se afastará de todos nós e poderemos investir nossas energias e riquezas na satisfação das reais necessidades humanas e na criação de um clima de confiança entre os povos. Por Cristo, teu Filho e nosso Senhor!
            Hiroshima e Nagasaki nunca mais!
            Com amizade, 
D. Irineu Rezende Guimarães, O. S. B.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Carta Mensal - Julho de 2012

Tournay, 15 de junho de 2012.

            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            Neste mês de julho, convido vocês a meditar o tema “pão e paz”, rezando por todas pessoas que passam fome, cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo. Os dados são mais que conhecidos: a cada cinco segundos, uma criança de menos de dez anos morre de fome e cerca de 37 mil pessoas vão seguir o mesmo destino, todos os dias. Segundo dados da FAO, Organização para a Alimentação e Agricultura, das Nações Unidas, o atual estágio das forças de produção tem condições de alimentar 12 bilhões de seres humanos, com 2.200 calorias diárias! Se somos, atualmente, no mundo, 7 bilhões, por que então a fome?
            Em primeiro lugar, por causa de um modelo econômico onde uma dezena de sociedades privadas controlam 85% do mercado alimentar mundial, fixando os preços e controlando os estoques. Os pobres não conseguem mais comprar seus alimentos e os programas alimentares perderam a metade do seu orçamento. Tudo isso, somado com o endividamento de numerosos países pobres, impedidos, por esta razão, de fazer os investimentos necessários ao seu desenvolvimento. A mundialização também tem seu efeito nefasto, aniquilando, em muitos países, as pequenas economias locais. Por trás do modelo econômico, há também opções políticas e sociais, como a preferência em investir em armas. Com as despesa militares mundiais de 2010, seria possível manter 212 milhões de crianças, ao custo médio de US$ 4.715,00 por ano! O dinheiro gasto para financiar um minuto da guerra no Iraque seria suficiente para suprir três refeições por dia para mais de 415 mil crianças! Gastamos cerca de 190 vezes mais dinheiro em armas do que no combate à crise de alimentos!
            O que a nossa fé nos diz de tudo isso?
            Os profetas de Israel, cerca de 700 anos antes de Cristo já tinham bem compreendido esta relação existente entre pão e paz. Sem pão, não há paz! O pão é o sinal evidente de relações sociais justas e fraternas! A paz é fruto da justiça (Is 32,17). O salmista canta esta paz que vem do pão partilhado: “graças à justiça, que montanhas e colinas tragam a paz para o povo” (Sl 72,3). Sem paz, não há pão! Enquanto a humanidade investe suas energias na guerra e em armamentos, ela não pode aplicar em outras necessidades, como a alimentação, a saúde, a educação! Os profetas Isaías e Miqueias, cerca de 700 anos de Cristo, propunham transformar as espadas em arados e as lanças em foices (Is 2,4-5; Mi 5,9).
            O Cristo veio entre nós como “pão da vida” (Jo 6,35) para “guiar nossos passos no caminho da paz” (Lc 1,79). Ele multiplicou o pão (Jo 6,1-15) e nos deixou a paz (Jo 14,27). Os cristãos são chamado a continuar a obra que o Senhor começou, a trabalhar e lutar por uma sociedade de pão e paz.
            Rezemos assim:
            Pai Nosso, teu povo passa fome! Tu que sacias teu povo e o abençoa com tua paz, ilumina a consciência da humanidade para que os povos sejam desarmados e os famintos alimentados. Inspira-nos a mudar nossos modos de vida e corrigir os modelos de crescimento que parecem incapazes de garantir o respeito pelo meio ambiente, um desenvolvimento humano integral e a paz entre as nações. Que nós possamos dar aos pobres do mundo, comida e não bombas. Assim cumpriremos a lei do Cristo, teu filho e nosso Senhor!
            Com amizade,
D. Irineu Rezende Guimarães, O. S. B.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Carta Mensal - Junho de 2012


Tournay, 15 de maio de 2012.

            A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            Uma das coisas que mais me chama a atenção, aqui na Europa, é a total reconciliação que se produziu entre franceses e alemães.  Dois países que, por mais de setenta anos, se afrontaram em três grandes guerras (a de 1870, quando os alemães anexaram as regiões entre França e Alemanha, Alsácia e Lorena; a de 1914-1918, vencida pelos franceses com condições humilhantes para os alemães; a de 1940-1945, que culminou na derrota do nazismo) e que por muito tempo nutriram ódios profundos entre eles, são capazes hoje de viver fraternalmente, sem nenhum ressentimento, nem rancor, cimentando a unidade europeia. Nada, absolutamente nada, hoje, nos faz imaginar que estes dois países nutriam mutuamente uma rivalidade mortal.
            Várias pessoas e entidades trabalharam para que isto acontecesse. Entre os homens de Estado se destacam: o alemão Konrad Adenauer (1876-1967) e  o francês Robert Schuman (1886-1963), considerados hoje como “pais da Europa Unida”, dados o empenho e a firmeza com que se dedicaram a esta obra. Num plano mais espiritual, devemos lembrar o padre alemão Franz Stock (1904-1948), pároco da Paróquia alemã de Paris a partir de 1933; durante a ocupação foi capelão das prisões; após a guerra, reitor do seminário dos prisioneiros alemães. Morreu de esgotamento como apóstolo da reconciliação e paz. Importante atuação também exerceu o movimento católico “Pax Christi”, fundado em 1945, com o nome de Movimento para a Reconciliação franco-alemã, por iniciativa de Mgr. Pierre-Marie Théas, na época bispo de Montauban, França, e por uma professora francesa, Marthe Dortel-Claudot: tendo se posicionado claramente durante a ocupação nazista contra deportação de judeus, Mgr. Théas assume, durante a libertação, ele prega o amor e a reconciliação com os antigos inimigos.
            Este exemplo da França e da Alemanha nos faz acreditar na possibilidade de transcender os conflitos e de efetivar uma profunda reconciliação, ultrapassando os preconceitos, os ódios, os ressentimentos, os rancores e as divisões. Sobretudo, isto nos faz acreditar mais do que nunca na paz; que ela é possível e não é uma quimera quando se trabalha seriamente por ela, em todas sua dimensões: políticas, sociais, econômicas, culturais, espirituais, religiosas, etc.
            Tendo frente a nós este belo testemunho,  convido vocês a rezarem este mês pela reconciliação entre povos e nações no mundo. Sobretudo, alguns conflitos que parecem se perpetuar à causa da ausência de uma perspectiva de conjunto para sua solução. Pensemos, entre outros: no conflitos entre israelenses e palestinos; nos conflitos entre tribos na África; nos conflitos entre facções no interior de vários países; nos conflitos e rivalidades entre duas ou mais nações que se consideram inimigas. Rezemos especialmente por todas pessoas e grupos que trabalham para superar estes ódios, frequentemente considerados como ingênuos e sonhadores e, muitas vezes, como traidores do seu grupo ou do seu povo.
            Colocando nos mais profundo dos nosso ser todas estas situações de divisão, rezemos assim:
Ó Deus de toda paz, tu enviaste o Cristo, nossa paz, para derrubar o muro de separação existente entre os povos e fazer de toda a humanidade um só povo, fazendo morrer o ódio (Cf. Ef 2,14-15), nós te pedimos por todas as pessoas e grupos que se aplicam a trabalhar pela reconciliação e superar as mais diversas situações de conflito: que não se deixem tomar pelo desânimos, que resistam à críticas e perseguições, que tenham inventividade para propor novos caminhos. Sobretudo, para que sejam animados profundamente do Espírito de Unidade, este Espírito que reúne no Cristo a diversidade de culturas e visões. Por Cristo, Senhor nosso.

            Com amizade,

D. Irineu Rezende Guimarães, O. S. B.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Carta Mensal - Maio de 2012


Tournay, 30 de abril de 2012.

            Queridos amigos e amigas EM BUSCA DA PAZ,
                        Paz!
            No dia 15 de maio, muitos grupos e organizações pacifistas celebram o Dia Mundial da Objeção de Consciência. Em geral, a objeção de consciência se aplica ao serviço militar ou à participação em guerras, mas pode ser aplicada a outros casos, como, por exemplo, como Martin Luther King que se recusou a obedecer as leis que segregavam os negros americanos. A objeção de consciência é um direito que as pessoas possuem de recusar “em consciência a seguir as prescrições das autoridades civis se forem contrárias às exigências da ordem moral, aos direitos fundamentais das pessoas ou aos ensinamentos do Evangelho” (Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2242). Leis injustas colocam as pessoas diante de problemas dramáticos de consciência: quando são chamados a colaborar em ações moralmente más, têm a obrigação de recusar. Além de ser um dever moral, a objeção de consciência é também um direito humano fundamental.
            O cristianismo muito contribuiu para o desenvolvimento deste princípios com sua visão de liberdade e consciência. No livro dos Atos dos Apóstolos, as autoridades religiosas proíbem aos apóstolos de anunciar o nome de Jesus Ressuscitado. Questionados porque não acatavam essa determinação, eles responderam: “Importa obedecer mais a Deus do que aos homens” (At 4,19).
            O desenrolar da história da Igreja oferece muitos exemplos de objetores de consciência. O padroeiro dos objetores é São Maximiliano, martirizado em 295, em Teveste, África do Norte, com a idade de 21 anos, por causa de sua recusa em fazer o serviço militar. Durante o processo, ele afirmou: “Eu não posso servir, eu não posso fazer mal, pois eu sou cristão”. E acrescentou: “Eu sirvo ao Cristo, pois ele é o príncipe da vida, o autor da salvação”. Lactâncio (+325), escritor cristão também da África do Norte, afirmava o absoluto da ordem divina de não matar: “Quando Deus proíbe de matar, ele não proíbe somente o assalto, ilícito mesmo para as leis do Estado, mas ele nos convida mesmo a não fazer os que os homens tem por lícito. É por isso que o justo não pode ser soldado, pois o serviço militar do justo é a justiça mesma” (Cf. Instituições Divinas, VI,20,15). De exemplos recentes, temos o testemunho de Franz Jägerstätter, beatificado em 2007. Pai de três filhas, ele se recusou a servir o exército nazista por razões de sua fé cristã. Preso, foi condenado à morte e decapitado em 9 de agosto de 1943: ele é um dos testemunhos contemporâneos desta força da consciência.
            Fora dos círculos cristãos, temos muitos exemplos de objetores de consciência que se recusam a fazer o serviço militar, arcando com a prisão a consequência de suas decisões. Também é conhecido o movimento Yesh Gvul (“Há um limite”), reunindo pessoas que recusam de servir ao exército israelense ou mesmo soldados que não aceitam participar de atos repressivos. Muitos oficiais israelenses foram presos porque não aceitaram participar de ações militares repressivas.
No mês passado, rezamos pelo desarmamento: nenhum centavo para a guerra! Este mês rezamos pelos objetores: nenhuma pessoa para a guera! Nesta intenção, rezemos assim:
“Ó Deus de toda paz, tu criaste o homem e a mulher à tua imagem e semelhança: no santuário da consciência de cada pessoa humana, tu te fazes presente e tu nos conduzes a seguir na trilha dos teus mandamentos. Nós te pedimos por todos aqueles que, fiéis à teu mandamento de “não matar”, recusam à colaborar com toda violência, sendo por isto sancionados pela sociedade. Que eles permaneçam firmes na fidelidade às tuas leis. Que a força desta profecia inspire a humanidade a concretizar a visão do profeta Isaías: “Ninguém mais será treinado para a guerra!” (Cf. Is 2,4). Por Cristo, Senhor nosso.”


            Com amizade,

D. Irineu Rezende Guimarães, O. S. B.