quinta-feira, 31 de julho de 2014

Carta Mensal - Junho de 2014


A PAZ PARA O ORIENTE MÉDIO

A todos vós que procurais a paz:
Paz!
A recente peregrinação do Papa Francisco na Terra Santa, assim como o encontro de prece celebrado no Vaticano no dia 08 de junho, com a presença do Presidente da Autoridade Palestina e do Estado de Israel, tudo isto reacendeu as esperanças de paz para esta região. Assim, eu vou convido a sustentar pela nossa prece estas iniciativas.
O Papa Francisco não mediu esforços para pedir aos Palestinianos e Israelitas que terminem com este conflito: “que eles redobrem os esforços e as iniciativas destinadas a criar as condições de uma paz estável, baseada sobre a justiça, sobre o reconhecimento dos direitos de cada um e sobre a segurança recíproca” (Encontro com as autoridades palestinas, 25 de maio de 2014). Ele reforçou a proposição enunciada por Bento XVI: “que seja universalmente reconhecido que o Estado de Israel tem o direito de existir e de gozar da paz e da segurança nas fronteiras internacionalmente reconhecidas. Que seja igualmente reconhecido que o Povo palestino tem direito a uma pátria soberana, a viver com dignidade e a viajar livremente. Que a “solução de dois Estados” se torne uma realidade e não continue a ser apenas um sonho” (Cerimonia de recepção no aeroporto internacional Bem Gurion, 25 de maio de 2014). Recordando a etimologia hebraica da palavra Jerusalém, - “Cidade da Paz” – o Papa proclamou seu desejo, e de toda humanidade: “Que Jerusalém seja verdadeiramente a Cidade da Paz! Que resplandeça plenamente sua identidade e seu caráter sagrado, seu valor religioso e sua cultura universal, como um tesouro para toda humanidade!” (Visita de cortesia ao presidente do Estado de Israel, dia 26 de maio de 2014).
No encontro do Vaticano, depois da viagem e na presença das autoridades dos dois povos, o Papa afirmou a necessidade de usar toda energia para conseguir a paz: “para fazer a paz necessitamos de coragem, bem mais do que para fazer a guerra. Precisamos de coragem para dizer sim ao encontro e não ao enfrentamento; sim ao diálogo e não â violência; sim à negociação e não às hostilidades; sim ao respeito dos acordos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isto é preciso coragem, uma grande força da alma” (Invocação para a paz, 08 de junho de 2014).
Com as palavras do Papa Francisco, rezemos ao Senhor:
Senhor Deus da paz, escuta a nossa súplica! Nós tentamos tantas vezes e durante tantos anos resolver nossos conflitos com nossas forças e também nossas armas; tantos momentos de hostilidade de obscuridade; tanto sangue derramado; tantas vidas machucadas, tantas esperanças destruídas... Mas nossos esforços foram em vão. Agora, Senhor, ajuda-nos Tu! Dai-nos Tu a paz, ensina-nos Tu a paz, guia-nos Tu para a paz (...) Senhor Deus de Abraão e dos Profetas, Deus de Amor que  nos criou e nos chama a viver como irmãos, dai-nos a força de ser a cada dia  os artesãos da paz; dai-nos a capacidade de olhar com benevolência todos os irmãos que nós reencontramos no nosso caminho. Torna-nos disponíveis para escutar o grito de nossos concidadãos que nos pedem para transformar nossas armas em instrumentos da paz, nossos medos em confiança e nossas tensões em perdão. Mantenha acessa em nós a chama da esperança para realizarmos, com paciência perseverante as escolhas de diálogo e reconciliação (...) que o estilo de nossa vida se torne: shalon, paz, salm! Amém! (Invocação pela paz, 08 de junho 2014).
Com toda minha amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia de Notre-Dame, Tournay, França
Tournay, 18 de maio de 2014.

Carta Mensal - Maio de 2014


                     A PAZ PARA A REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA

A todos vocês que buscam a paz:
Paz!
te mês eu lhes convido a rezar pela paz na República Centro-Africana. Desde 2003 este país vive um conflito entre duas facções: a que sustenta o ex-presidente François Bozizé, conhecida pelo nome anti-balaka, e a facção que sustenta o antigo presidente, Michel Djotodia, chamada Seleka. Este conflito político e militar é um conflito intercomunitário, com inúmeras pilhagens contra civis, muçulmanos ou cristãos, que fogem das cidades para encontrar refúgio no interior. Este conflito atinge também uma dimensão internacional, de tal forma que o Conselho de Segurança das Nações Unidas, no dia 05 de dezembro de 2013, através da resolução 2127, autorizou o « prolongamento da Missão Internacional de apoio à Centro África com gerenciamento africano (MISCA) por um período de 12 meses », com a finalidade de acabar com a «falência total da ordem pública, a ausência do estado de direito e as tensões interconfessionais.  »
Os bispos da República Centro Africana insistem sobre o fato de que a resolução da crise somente se fará com a participação dos cidadãos e os convidam a assumir sua parte de responsabilidade nesta crise que mergulhou o país no caos e que colocou uns contra os outros. Para eles, «os jogos políticos e a defesa de interesses egoístas e particulares esvaziaram a sociedade dos valores humanistas e do respeito pela pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus. (…) Matar tornou-se um ato banal e sem gravidade». Mais do que uma luta política, os bispos centro africanos afirmam que « a verdadeira batalha é a do desenvolvimento, da revitalização econômica e da luta contra a pobreza, a miséria e a impunidade ». Concretamente os bispos propõem vários caminhos como: a reconstrução do aparelho de segurança através do reestabelecimento urgente de um exército republicano, formado e equipado para assegurar a segurança do território nacional e de todos os Centro africanos e Centro africanas ; a redução do período de transição e a organização de eleições ; o estabelecimento de uma comissão de enquete internacional independente  para investigar as violações dos direitos humanos na Centro África ; o envolvimento urgente dos soldados casques bleus, visto a complexidade da operação no território ; um desarmamento sem exceção dos ex-seleka, dos anti-balaka e de toda pessoa que tenha uma arma ; o estabelecimento do processo de desmobilização, desarmamento e repatriamento dos mercenários tchado-soudaneses e a reinserção dos combatentes centroafricanos ; a promoção do diálogo entre os fiéis das diferentes religiões que ali coabitam ; a indenização das vítimas da rebelião ; a luta contra o sistema de exclusão social baseado no pertencimento étnico, religioso e regional ; o estabelecimento de uma relação saudável com os países vizinhos, especialmente com o Tchad (http://justice-paix.cef.fr/IMG/pdf/Reconstruisons_ensemble_notre_pays_dans_la_paix.pdf). 
Para que a paz volte a este país, rezemos ao Senhor:
Ó Deus da Paz, teu filho Jesus Cristo, pela sua morte e Ressurreição, destruiu o muro de ódio entre os povos. Nós te pedimos por nossas irmãs e irmãos da República Centro África; que eles possam realizar o desarmamento das mãos, do coração e do espírito; que eles possam recuperar a confiança, a tolerância e o perdão; que eles possam enfim renovar sua esperança em Ti e no homem. Que eles vivam assim a cultura da verdade, da justiça e da paz que Jesus nos legou. Amém.
Com toda minha amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia de Notre-Dame, Tournay, França
Tournay, 18 de abril de 2014.

Carta Mensal - Abril de 2014


A PAZ E AS FAMÍLIAS

A todos vós que procurais a paz:
Paz!
O Papa Francisco convocou para o mês de outubro deste ano a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Cardeais, para discutir sobre o tema « Os desafios pastorais  da família no contexto da evangelização ». Dia 02 de fevereiro ele escreveu uma carta a todas as famílias convidando-as a participar ativamente na preparação deste encontro, através de sugestões e, sobretudo, através da oração.
Para nós é uma oportunidade de orar e refletir sobre a contribuição das famílias para a paz sobre a terra. O Papa João-Paulo II consagrou a mensagem do Dia Mundial da Paz de 1994 sobre este tema: « Da família nasce a paz da família humana ».  Nesta oportunidade João Paulo II reflete sobre a família como uma comunidade de vida e de amor: « As virtudes familiares, fundadas sobre o profundo respeito para com a vida e a dignidade do ser humano, e traduzidas em compreensão, paciência, a sustentação e perdão mútuos, dão para a comunidade da família a possibilidade de viver a experiência primeira e essencial da paz » (n° 2). No entanto, ele constata que muitas vezes a família é uma vítima da ausência da paz e que « contrariando a sua vocação primeira de espaço da paz, infelizmente a família se revela, em inúmeros casos, como um lugar de tensões e de violência, ou então, como vítima desarmada de várias formas de violência que caracterizam a sociedade atual » (n° 3-4) Nossa própria experiência nos mostra quantos lares são destruídos por disputas e conflitos, seja entre pais e filhos, seja entre irmãos, e na maior parte das vezes por motivos mesquinhos. Apesar de todos estes limites, podemos considerar a família como uma protagonista da paz:  «Para que as condições da paz sejam duráveis, é necessário que existam instituições que exprimam e que reafirmem os valores da paz. A instituição que corresponde da maneira mais imediata à natureza do ser humano é a família. Somente ela pode assegurar a continuidade e o futuro da sociedade. “Assim, a família é chamada a se tornar protagonista ativa da paz, graças aos valores que ela exprime e que ela transmite no interior do lar, e graças à participação de cada um dos seus membros na vida em sociedade» (n° 5). Para realizar esta missão é preciso, sobretudo, vencer o desafio da pobreza:  «A indigência sempre é uma ameaça para a estabilidade social, para o desenvolvimento econômico e, assim, finalmente, para a paz.  A paz ficará em perigo enquanto pessoas e famílias se verão obrigadas a lutar pela sobrevivência »  (n°5). Por fim, João Paulo II compreende a missão da família como um serviço para a paz. Assim ele recomenda e sugere a cada família: «Procure esta paz, ore por esta paz, trabalhe por esta paz! » (n° 6). Os pais são chamados a serem educadores da paz; as crianças, a se preparar para o futuro, almejando o bem e cultivando pensamentos de paz ; os avós, a comunicar sua experiência e seu testemunho para religar o passado e o futuro em um presente de paz. Para os que não têm família, a Igreja é encarregada de cumprir esta responsabilidade sendo a grande casa das crianças de Deus (n°6).
Para que as famílias do mundo inteiro possam viver esta vocação de artesãos da paz, oremos ao Senhor:
Ó Deus, Pai de toda humanidade, tu desejas que todos os homens e todas as mulheres possam viver como irmãos e irmãs sobre a terra. Abençoa cada família humana e dá-lhes a graça de viver em paz e de ser uma fonte de paz para o mundo. Amém.
Com toda minha amizade,
                                               Irmão Irineu rezende Guimarães
                                   Monge beneditino da Abadia de Notre-Dame, Tournay, França

terça-feira, 18 de março de 2014

Carta Mensal - Março de 2014


A paz e a participação das mulheres


A todos vocês que procuram a paz :
Paz !
A ONU proclamou o dia 8 de março como o « Dia Internacional das Mulheres » para suscitar uma tomada de ação à propósito do papel das mulheres na sociedade atual. Nesta ocasião eu vou convidá-los a refletir e rezar sobre a contribuição das mulheres para a paz no mundo. Se elas muitas vezes são vítimas da guerra e dos conflitos, elas também são construtoras importantes da reconciliação.
Se muitos processos e diálogos pela paz nao se efetivam é porque não se dá espaço suficiente para as mulheres. O médico palestino Izzedin Abuelaish, que perdeu três filhas num bombardeamente em Gaza, e fundou « Filhas pela vida », afirma : « Nós devemos aceitar a idéia de que as mulheres podem contribuir muito nas mudanças a serem realizadas. (...) Quando os valores femininos serão levados em consideração em todos os níveis da sociedade, os valores desta sociedade vão mudar e a vida será mais fácil ».
Para se assegurar a participação das mulheres nas negociações de paz o Conselho de Segurança da ONU, na sua sessão numero 4213, no dia 31 de outubro de 2000, aprovou  Resolução 1325. Este documento propõe que a ONU e seus Estados Membros possam se empenhar para dar às mulheres um lugar importante na prevenção dos conflitos, nas negociações de paz, assim como na reconstrução das sociedades destruídas pela guerra. Três palavras podem resumir esta resolução: prevenção, proteção e participação.
A Resolução insiste que as nações façam esforços para que as mulheres sejam melhor representadas em todos os níveis das tomadas de decisão – nacional, regional ou internacional – para prevenção, gestão e normatização dos conflitos. Que elas estejam mais presentes na qualidade de observadoras militares, de membros da policia civil, de especialistas dos direitos do homem e como membros de operações humanitárias. O documento propõe igualmente uma conduta que se preocupe com a imparcialidade entre os sexos por ocasião da negociação e da execução dos acordos de paz. Ele exige também que todas as partes envolvidas em um conflito armado respeitem plenamente as normas do direito internacional em relação às mulheres e às meninas, protegendo-as contra os atos de violência, em particular o estupro e outras formas de agressão sexual. Este documento propõe a introdução da perspectiva de gênero no processo de paz : temos que repensar a relação homem e mulher numa perspectiva de parceiros pela paz, o que exige uma nova compreensão da identidade masculina, menos guerreira e mais conciliadora.
A fim de que estas resoluções sejam colocadas em prática por todos os países do mundo, rezemos ao Senhor :
Ó Deus da paz, tu criaste o homem e a mulher à tua imagem e semelhança para que eles sejam um só. Abençoa todas as inciativas de colaboração entre homens e mulheres pela paz do mundo. Inspira todas as mulheres que se consagram à reconciliação e à resolução dos conflitos. Ilumine todos os chefes de nações para que eles possam dar às mulheres mais espaço nas negociações e nos processos de paz. E toda terra reconciliada, como uma grande familia, bendirá teu nome para todo sempre. Amém.
Com toda minha amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
monge benditino da Abadia de Notre-Dame, Tournay, França
Tournay, 25 de fevereiro de 2014.

Carta Mensal - Janeiro de 2014

            Tournay, 30 de dezembro de 2013.
À todos vós que procurais a paz :
Paz !
O Papa Francisco escolheu como tema para este dia 1 de janeiro de 2014 a Jornada Mundial da Paz: « A fraternidade, fundamento e caminho para a paz ». A meditação desta mensagem poderá muito bem orientar a nossa prece pela paz neste primeiro dia do ano novo.
O ponto de partida desta reflexão do papa é a existência, em cada um de nós, de uma «sede incontornável de fraternidade, que leva à comunhão com os outros, na qual nós não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que nos acolhem e abraçam.» No entanto esta vocação é negada por uma «globalização da indiferença, que nos faz aos poucos nos habituarmos com o sofrimento do outro, nos fechando em nós mesmos », num mundo em que falta a referencia a um Pai comum, fundamento último da fraternidade entre os homens (n° 1). Se Caim simboliza a recusa da responsabilidade pelos nossos irmãos (n° 2), Cristo, no seu abandono à morte pelo amor ao Pai, reconcilia em si mesmo todos os homens (n° 3). A paz é compreendida como um movimento de solidariedade para com todos, especialmente os mais pobres, amados « como a imagem viva de Deus o Pai, resgatado pelo sangue do Cristo e objeto de ação constante do Espírito Santo » (n° 4).  Assim a fraternidade se apresenta como um caminho para vencer a pobreza, seja « pela redescoberta e pela valorização das relações fraternas no seio das famílias e das comunidades », seja através de políticas eficazes « que assegurem à todos sua dignidade e seus direitos fundamentais », seja ainda através de « estilos de vida sóbrios e baseados sobre o essencial » (n° 5). A grave crise financeira e econômica contemporânea pode também ser uma oportunidade para encontrarmos um modelo de economia mais fraternal (n° 6). Da mesma maneira, a fraternidade se apresenta como uma alternativa para resolver os conflitos humanos, na medida em que redescobrirmos como um irmão aquele que hoje consideramos como um inimigo a ser eliminado: o que exige um esforço firme « em favor da não proliferação das armas e do desarmamento da parte de todos, começando pelo desarmamento nuclear e químico », assim como, com uma conversão dos corações (n° 7). Um autêntico espírito de fraternidade pode impedir múltiplas formas de corrupção, como o tráfico ilícito de dinheiro, de drogas, de pessoas e órgãos humanos, etc. (n° 8). Enfim, uma ética de fraternidade se estende também à natureza, na utilização racional dos recursos em benefício de todos, de maneira que todos sejam libertos da fome (n° 9). « O realismo necessário da política e da economia não pode se reduzir à uma técnica privada de ideal, que ignora a dimensão transcendental do homem » : é somente na abertura à Ele, que ama cada homem e cada mulher, que a política e a economia poderão ser um instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz (n° 10).
Para que as palavras do Papa Francisco sejam acolhidas por todos, rezemos assim, usando as suas palavras:
 Ó Deus da Paz, « o Cristo veio ao mundo para nos trazer a graça divina, que dizer,  possibilidade de participar de sua vida. (…) Esta boa nova reclama de cada de nós um passo a mais, um exercício persistente de empatia, de escuta do sofrimento e da esperança do outro, incluindo o sofrimento daquele que está mais longe de mim, engajando-nos no caminho exigente do amor que sabe se doar e se dedicar gratuitamente pelo bem de todo irmão e toda irmã. Que Maria, Mãe de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que surge do coração do seu Filho, para trazer a paz à todo homem sobre nossa terra bem-amada ». Amém.
Com os votos de um ano novo abençoado!
Dom Irineu Rezende Guimarães
monge beneditino, Abadia Notre-Dame, Tournay, França

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Carta Mensal - Fevereiro de 2014


A PAZ E OS IMIGRANTES
A todos vós que procurais a paz:
Paz
No dia 19 de janeiro de 2014 celebramos o Centésimo Dia Mundial do Imigrante e do Refugiado, com o objetivo de sensibilizar a consciência cristã e humanitária para que tomem uma atitude em relação a estes homens e mulheres obrigados a deixar suas terras, na procura de uma vida mais digna. E, no entanto, mesmo com toda esta mobilização, o drama destas pessoas não parece chegar ao fim.
 O maior símbolo desta tragédia é uma pequena ilha italiana - a Ilha de Lampedusa – de 20,2 Km quadrados de superfície e em torno de 5 mil habitantes. Estando localizada a meio caminho entre a Europa e a África, a ilha se tornou uma porta de entrada para aqueles que desejam ir para Europa de modo irregular. Dezenas de milhares de pessoas chegam ali sem a documentação necessária, através de navios chamados de “navios da esperança”, pagando muito caro por isso. Sem nenhuma segurança os imigrantes viajam amontoados como sardinhas em lata. As estimativas falam que mais de 20 mil pessoas já perderam a vida fazendo esta travessia. O caso mais recente é o do dia 03 de outubro de 2013, quando um navio que transportava 500 imigrantes pegou fogo e virou, matando 350 pessoas.
A questão não é nada simples: todos estes imigrantes devem ser acolhidos na Europa? Eles devem ser reenviados aos seus países? Devemos deixá-los morrer? Em 2007 dois capitães de barcos de pesca italianos foram levados à justiça por terem socorrido os « navios da esperança », e foram acusados de terem ajudado os imigrantes ilegais a entrar no território. No dia 08 de julho de 2013 o Papa Francisco foi para esta ilha manifestar a sua solidariedade para com todas as vitimas, assim como manifestar sua solidariedade para com a comunidade de Lampedusa que pratica incansavelmente a caridade para os mais necessitados. Nesta ocasião ele nos lembrou da nossa responsabilidade humanitária nesta situação: «Muitos de nós, e eu me incluo neste grupo, estamos desorientados, nós não prestamos mais atenção ao mundo no qual vivemos, nós não nos ocupamos mais do outro, nós não cuidamos do que Deus criou para nós e não somos mais capazes de cuidarmos uns dos outros. E quando esta desorientação assume dimensões mundiais, chegamos a tragédias como esta a que assistimos». Na sua mensagem pela passagem do Dia do Imigrante e do Refugiado, publicada em 05 de agosto de 2013, ele nos convida a « passar de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse e de marginalização – que no final das contas corresponde à « cultura da exclusão » - para uma atitude que tenha como base a « cultura do encontro », a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor ».
A paz mundial vai depender em grande parte da solução e da resposta que nós daremos à situação dos imigrantes e dos refugiados. Ou a paz vem para todos, ou a paz não virá para ninguém: precisamos estabelecer uma ordem cosmopolita na qual o mundo se transformará numa casa de todos e que todos sejam bem acolhidos em toda parte.
Com as palavras do Papa Francisco em Lampedusa, assumamos nossa parte de responsabilidade nesta questão :
Senhor, nós pedimos perdão pela indiferença em relação a muitos irmãos e irmãs; Pai, nós te pedimos perdão por aquele que se acomodou e se fechou no seu próprio bem-estar que leva à insensibilidade do coração, nós te pedimos perdão por aqueles que através de suas decisões ao nível mundial criaram situações que conduzem a esses dramas. Perdão Senhor! Senhor, que ouçamos hoje também as questões: « Adão, onde tu estás? », « Onde está o sangue do teu irmão? ». Amem.
Com toda minha amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães,
monge beneditino da Abadia Notre-Dame, Tournay, França.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Carta Mensal - Dezembro de 2013


Tournay, 25 de novembre de 2013.

A vocês todos que procuram a paz,
PAZ !
O Conselho Mundial das Igrejas, organismo que reúne mais de 300 igrejas cristãs, acaba de celebrar em Busan, na Republica da Coréia, do 30 de outubro ao 08 de novembro, sua décima assembleia geral, com o tema “Deus da Vida, conduza-nos em direção à justiça e a paz!”. Eles aprovaram várias declarações em relação a isso.
A declaração mais importante, intitulada « Sobre o caminho da paz justa », recupera a noção bíblica de paz, sempre associada à justiça.  O primeiro ponto – “juntos, nós cremos” – nos diz que “a paz constitui um modo de vida que reflete a participação humana no amor de Deus por toda criação”. O segundo ponto – “juntos, nós pedimos” – mostra quatro objetivos a serem alcançados: uma paz justa nas comunidades, afim de que sejamos libertados de todo medo; uma paz justa no planeta, a fim de que toda vida seja sustentável: uma paz justa no mercado econômico, afim de que todos possam viver com dignidade: uma paz justa entre as nações, afim de que toda vida humana seja protegida. O terceiro ponto – « juntos, nós nos engajamos » - exprime o desejo de construir uma cultura da paz nas famílias, nas comunidades e na sociedade. O quarto ponto – “juntos, nós recomendamos ao Conselho Mundial das Igrejas” – propõe uma série de ações para encorajar as Igrejas a desenvolver um verdadeiro ministério pela paz e pela justiça. O quinto e último ponto – “juntos, nós recomendamos aos governos” – sugere ações para construção de uma paz justa, tais como: a redução da emissão de gazes com efeito estufa; a eliminação dos armamentos nucleares; a destruição de todos os estoques de armas químicas; medidas para evitar os armamentos robóticos como os “drones”; a utilização dos orçamentos militares para ajuda humanitária; a ratificação e a implementação de um tratado para regulamentar o comércio de amas.
A declaração « Politização da religião e direitos das minorias religiosas » chama os cristãos à intervir juntos aos seus governos, a fim de que eles assegurem uma proteção eficaz das pessoas e das comunidades que pertencem à religiões minoritárias.
A declaração « A paz e a reunificação da península coreana » propoe o fim de todos os exercicios militares e o fim da intervenção estrangeira a fim de garantir um processo dinamico de paz na região.
A declaração « Os direitos humanos dos apatridas » chama as Igrejas a dialogar com os Estados a fim de que eles adotem políticas que concedam a nacionalidade e os papéis de identidade oficiais aos apátridas.
A Assembléia exprimiu igualmente a sua preocupação em relação aos cristãos do Oriente Médio, da situação na Republica democrática do Congo e da comemoração do centenário do genocidio armenio de 1915.
Para que estas proposições e estes engajamentos sejam assumidos pelos cristãos do mundo inteiro, rezemos assim :
Deus, nosso Pai, quando teu filho Jesus nasceu, os anjos anunciaram a paz para toda humanidade. Envia teu Espirito Santo sobre os discipulos de Cristo : que Ele retire toda violencia de seu coração ; que Ele os inspire a vencer o mal pelo bem ; que Ele faça de cada batizado um autentico artesão da paz ! E que todas as Igrejas e confissões cristãs se reunam em torno da paz, que Ele, O Principe da Paz, nos dá, Amem !
Feliz natal !
Irmão Irineu Rezende Guimarães
Monge benditino da Abadia de Notre-Dame, Tournay, França

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Carta Mensal - Novembro de 2013

Tournay, 15 de octubro de 2013.

A todos vocês que buscam a paz,
PAZ!
A situação do povo da Síria convida a todos nós a intensificar nossa prece pela paz e pelo fim desta guerra que já dura dois anos, causando a morte de mais de cem mil pessoas e dois milhões de refugiados.
O dia 7 de setembro, dia da prece pela paz na Síria e no Oriente Médio, que foi convocado pelo papa Francisco, ressalta a contribuição dos cristãos na busca de uma solução negociada para o conflito. Na sua mensagem do Angelus, no dia primeiro de setembro, ele nos lembrava: “Não é nunca o uso da violência que nos leva à paz. A guerra chama a guerra, a violência chama a violência!”. Nesta ocasião, o papa fez dois chamados. O primeiro, dirigido a todas as partes envolvidas no conflito, é “de escutar a voz de sua consciência, de não se fechar em seus próprios interesses, mas de olhar o outro como um irmão e de procurar corajosamente e decididamente o caminho do reencontro e da negociação, ultrapassando as oposições cegas”.  O segundo chamado foi dirigido à comunidade internacional, pedindo que “façam todo esforço para promover, sem mais demora, iniciativas claras fundadas sobre o diálogo e a negociação pela paz nesta Nação, para o bem de todo povo sírio. Que nenhum esforço seja poupado para garantir uma assistência humanitária a todos os que são atingidos por este terrível conflito, particularmente os refugiados neste País e os numerosos refugiados nos países vizinhos. Que seja garantida aos agentes humanitários engajados em aliviar o sofrimento da população, a possibilidade de prestar a ajuda necessária”.
Mesmo se conseguimos evitar até agora uma solução militar, a perspectiva de uma solução negociada continua muito pequena. Internamente, diversos grupos de oposição se disputam entre eles e não conseguem chegar a um consenso. Ao nível internacional o Conselho de Segurança da ONU aprovou, no dia 11 de outubro, uma missão juntamente com a Organização para a Interdição das Armas Químicas, a OIAC, que foi laureada com o Premio Nobel da Paz de 2013, para supervisionar na Síria a destruição do estoque de armas químicas e das instalações de produção das mesmas. No entanto, ainda temos muitos desafios para assegurar a paz nesta paz. Para começar, precisamos garantir aos agentes humanitários o acesso às populações atingidas. Em seguida, a convocação de uma conferencia internacional encarregada de encontrar uma solução para este conflito, pedindo um cessar fogo imediato, o respeito dos direitos humanos e do direito internacional, um embargo total sobre as armas e o controle das vendas de armas efetuadas, e o comprometimento com um processo de negociação que permita instaurar uma transição democrática.
Para que a paz possa reinar novamente neste país, que tanto contribuiu para a civilização, rezemos assim:
Ó Pai Eterno, as terras da Síria foram testemunhas da tua salvação: foi lá, no caminho de Damasco, que tu revelaste à Paulo o Cristo Ressuscitado; foi lá também que os discípulos de teu Filho foram chamados, pela primeira vez, de cristãos; neste país as primeiras gerações de cristãos pregaram, em nome do Evangelho! Nós te pedimos: Volta teu olhar amoroso para este povo! Que as partes que hoje estão em guerra possam dialogar verdadeiramente! Que a comunidade internacional seja a garantia de uma solução negociada! Que os refugiados possam voltar às suas casas. Que se faça a justiça e se promova a reconciliação para que este país possa se reconstruir e caminhar pelas vias da paz! Nos te pedimos por Este que é nossa Paz, Jesus Cristo, teu Filho e nosso Senhor. Amém!
Com amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia Notre-Dame, Tournay, França

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Carta Mensal - Outubro de 2013


Tournay, 15 de setembro de 2013.
A vocês todos que procuram a paz,
PAZ!
A polêmica sobre o uso ou não de armas químicas, na Síria, levanta novamente a discussão sobre tais armas que são consideradas, junto com as armas atômicas e biológicas, como armas de destruição de massa, capazes de atingir um grande numero de pessoas, e com um forte impacto no meio ambiente.
O uso de gazes tóxicos em larga escala durante a Primeira Guerra mundial gerou a reação da comunidade internacional, e levou ao Protocolo de Genebra de 1925: a interdição, durante as guerras, do uso de gazes asfixiantes, tóxicos ou similares, ou de meios bacteriológicos. O Protocolo de 1925 é um novo passo no direito humanitário internacional: não sendo por algumas poucas exceções, ele foi respeitado nos conflitos armados desde 1925. Durante a Segunda Guerra mundial, os principais países beligerantes não utilizaram aramas químicas ou biológicas contra seus inimigos. No entanto, este protocolo é insuficiente: ele não proíbe nem a pesquisa, nem a produção e nem a transferência destas armas. Países como a Franca, os Estados Unidos, a União Soviética e a Inglaterra assinaram o Protocolo, mantendo o direito a represálias, caso fossem atacados por armas químicas.
Um novo passo foi dado com a Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas, que está aberta à assinatura desde 13 de janeiro de 1993. Ela proíbe a pesquisa, a fabricação, a estocagem, a conservação e a transferência das armas químicas, incluindo seus vetores (?), ela prevê também a destruição destas armas e estabelece medidas de verificação, sob a responsabilidade da Organização para a Proibição de Armas Químicas. Tendo entrado em vigor no dia 29 de abril de 1997, a Convenção conta com 188 Estados membros. Israel e Mianmar (?) ainda não ratificaram a Convenção, enquanto que cinco Estados ainda estão fora da Convenção (Angola, Coreia do Norte, Egito, Sudão do Sul e a Siria). É muito importante que estes últimos países assinem urgentemente a Convenção para assegurar a proibição completa das armas químicas. É importante também que os Estados que declararam suas armas químicas destruam completamente seus estoques, para que o mundo possa dar um passo definitivo na eliminação destas armas. Uma gota somente de um agente neurotoxico, do tamanho de uma ponta de alfinete, é suficiente para matar uma pessoa em alguns minutos!
O estado atual de progresso da química e biologia exige o estabelecimento de regras bem claras para evitar eventuais catástrofes. Precisamos admitir que as armas químicas e biológicas podem servir melhor aos atos terroristas. Estas armas, visto sua relativa facilidade de produção e seu preço reduzido, podem interessar a estados e grupos que procuram se munir de uma capacidade de destruição em massa. Tudo isto exige da comunidade internacional uma vigilância continua em relação a este tipo de armamento.
Para que o mundo seja liberado da ameaça das armas químicas, rezemos assim:
Pai, tu que criaste o homem à tua imagem e semelhança, tu lhe destes uma grande capacidade criadora. Envia teu Espírito criador sobre os homens de ciência e sobre os homens que governam as nações: que eles consagrem suas energias a serviço da vida e da paz, e não a serviço da morte e da guerra. Elimina da face da terra a ameaça de armas químicas. E todos os povos, libertos do ódio e de todo impulso beligerante, caminharão pelas trilhas dos ensinamentos de Jesus Cristo, Príncipe da Paz, teu Filho e nosso Senhor. Amém! 
Com amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Carta Mensal - Setembro de 2013


Tournay,  30 de agosto de 2013.

  A vocês todos EM BUSCA DA PAZ,
  Paz!
  A Assembleia das Nações Unidas instituiu, em 1982, o « Dia Mundial da Paz », fixando, em 2002, a data de 21 de setembro. Com esta iniciativa, a ONU oferece ao mundo uma oportunidade de parar e refletir, procurando caminhos para quebrar o ciclo infernal da violência e da guerra. Os combatentes do mundo inteiro são convidados a fazerem uma trégua e depor suas armas, ao menos por um dia!
O tema escolhido para 2013 é « Educação para a paz », com o objetivo de refletir sobre o papel educação na formação dos cidadãos do mundo. Segundo Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU,  « não basta ensinar as crianças a ler, escrever e contar ; é preciso também lhes ensinar o respeito aos outros e ao mundo no qual vivemos, favorecendo assim o surgimento de sociedades mais justas, mais abertas e mais harmoniosas ». Na sua carta de 13 de junho p. p., apresentando a proposta do Dia Mundial da Paz 2013, Ban Ki-moon esclarece que este tipo de educação está no coração de sua iniciativa « Educação antes de tudo », na qual recomendava aos Estados para colocar a educaação no alto de suas prioridades. Ele convoca a todos – governos, partidos de um conflito, instituições religiosas, dirigentes locais, meios de comunicação, universidades ou grupos da sociedade civil – a aderir e a sustentar sua proposta. E acrescentou : « nós devemos colocar em ação programas de educação, proteger estudantes e professores em situações de conflito, reconstruir escolas destruidas pela guerra e dar às moças e rapazes uma educação de qualidade que lhes ensinará a resolver e prevenir conflitos ». Ki-moon conclui sua mensagem, convidando governos e cidadãos a não poupar esforços « para aprendermos juntos como promover uma cultura de paz universal ».
A educação para a paz constitui um grande desafio para todos. Em primeiro lugar para a sociedade, que nos ensina a violência da forma mais refinada possível: pelas canções que cantamos, pelas piadas que repetimos, pela forma pela qual punimos as crianças, pelo jogo que participamos ou assistimos, pelos meios de comunicação, pelos nomes da ruas, pelas somas investidas em armamentos enfim, de todas maneiras utilizadas para glorificar a violência. Em segundo lugar, a educação para a paz constitui um desafio para a escola em si, que, se não é mais palco de violência ou da sua racionalização, não é ainda agente de paz! É preciso pensar uma escola que nos ensine, além da fórmula de Bhaskara e da tabela periódica, a lidar com os conflitos sem violência, a canalizar nossa agressividade para ações construtivas, a desconstruir preconceitos e estereótipos; enfim uma  escola que propicie vivências de paz a toda comunidade educativa e que coloque a não-violência como eixo de suas ações pedagógicas. Finalmente, a educação para a paz constitui um desafio para cada habitante do planeta: as grandes violências são legitimadas pelas pequenas violências nossas do cotidiano! Da mesma forma, os grandes gestos de paz são ancorados nas ações domésticas que fazemos pela paz!
Para que a celebração do Dia Mundial da Paz de 2013 seja um acontecimento transformador, para países e cidadãos, rezemos assim:
Ó Deus, educador da paz, que guias teus filhos e filhas, conduzindo-os das veredas da violência às sendas da paz, dá-nos a graça de bem celebrarmos o Dia Mundial da Paz deste ano: que aqueles que combatem, deponham as armas, ao menos por um dia; e que aqueles que não pegam em armas, deponham a violência de seus corações e unam esforços para que a educação para a paz seja oferecidas às crianças e aos jovens. E que todos os dias sejam dias de paz, para todos os habitantes da terra! Isto te pedimos por Aquele que é nossa paz (Ef 2,14), o Cristo, teu Filho e nosso Senhor!        
Com amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

Carta Mensal - Agosto de 2013


Tournay, 31 de julho de 2013.

A vocês todos em busca da paz,
PAZ!
Um dos graves problemas de nosso tempo é este dos refugiados, que não encontrando mais segurança no lugar em que vivem, são obrigados a deixarem casa, trabalho e pátria para procurarem um lugar onde seja possível viver.
Segundo relatório divulgado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, em 20 de junho de 2013, Dia Mundial do Refugiado, o número de refugiados cresceu, atingindo a cifra de 45 milhões de vítimas, sendo 15,4 milhões de refugiados, 937 mil solicitando asilo e 28,8 milhões de pessoa obrigadas a mudar de domicilio em seu próprio pais, o que corresponde a um novo refugiado a cada quatro segundos. Este número, restrito ao ano de 2012 (não incluindo, portanto, os refugiados sírios de 2013!), é o maior registrado desde 1994, ano do genocídio em Ruanda e de grave crise nos Balcans, provocada pela dissolução da Iugoslávia.
Este aumento está relacionado, sobretudo, com a guerra civil na Síria, que, desde março de 2011, causou a morte de 93 mil pessoas e produziu 3,5 milhões de sírios refugiados no exterior e mais de 6 milhões deslocados internamente. As crises no Mali e na República Democrática do Congo também influenciaram, assim como a instabilidade politica em países como Afeganistão, Iraque, Somália e Sudão. Mais da metade dos refugiados recenseados provem de países em guerra. Cerca de 46% dos refugiados são menores de 18 anos, sendo que 21.300, não-acompanhados ou separados de seus pais, solicitaram asilo.
O Afeganistão, como nos últimos 32 anos, continua no topo da lista dos países que geram refugiados (2.865.600 !): em cada quatro refugiados, um é afegão ; sendo que 95% destes moram no Paquistão ou no Irã. Seguem Somália (1.136.100), Iraque (746.700) e Síria (471.400). Entre os países que abrigam refugiados, destacaram-se, em 2012, Paquistão (1,6 milhões), Irã (868.200), Alemanha (589.700) e Quênia (564.900).
O drama dos refugiados constitui uma grave ameaça à paz mundial. Já em 1963, através da encíclica « Pacem in Terris », o Papa João XXIII denunciava os sistemas políticos que « restringem em demasiado os limites de uma justa liberdade que permita aos cidadãos respirar um clima humano » (n° 104). Ele proclamava também que « os refugiados políticos são pessoas e que se lhes devem reconhecer os direitos de pessoa; tais direitos não desaparecem com o fato de terem eles perdido a cidadania do seu país » (n° 105). Ele reconhece como « um direito inerente à pessoa » a faculdade de se inserir « na comunidade política, onde espera ser-lhe mais fácil reconstruir um futuro para si e para a própria família », ao mesmo tempo em que aconselha os governos a acolher os refugiados e de lhes favorecer a integração na nova sociedade em que manifestem o propósito de inserir-se (n° 106).
Nesta intenção, rezemos assim:
Ó Pai, teu filho Jesus foi refugiado no Egito, para fugir da espada de Herodes. Da mesma forma que O protegeste, envia teus anjos para proteger os refugiados do nosso tempo. Sustenta todas as pessoas e instituições que trabalham em prol desta causa. Ilumina os governos do mundo para que sejam sensíveis ao drama destes nossos irmãos.Por Cristo, nosso Senhor! Amém!
Com amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

sábado, 6 de julho de 2013

Carta Mensal - Julho de 2013


Tournay, 20 de junho de 2013.

A vocês todos em busca da paz,
PAZ!
De 23 a 28 deste mês de julho, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, será realizada a XXVIII Jornada Mundial da Juventude. Jovens de todos os cantos do planeta encontrarão o Papa Francisco e refletirão o lema “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19). Na ocasião deste importante acontecimento, venho convidar vocês a rezar para que os jovens que participarão deste encontro e os jovens de todo o mundo sejam agentes de uma cultura de paz !
O bem-aventurado Papa João Paulo II afirmou, por ocasião do XVIII Dia Mundial da Paz, em 1° de janeiro de 1985, que “a paz e os jovens caminham juntos”. Dirigindo-se à juventude, ele dizia: “O desafio da paz é grande, mas a recompensa é ainda maior; porque o vosso empenho em favor da paz levar-vos-á a descobrir o que é melhor para vós próprios, ao procurardes aquilo que é melhor para os demais. Estareis a crescer e a paz estará a crescer convosco » (n° 12).
No entanto, para que isto se concretize plenamente, é preciso que as novas gerações sejam formadas para a paz ! O engajamento da juventude com a causa da paz não se dará espontaneamente, mas pelo empenho das gerações que lhes antecedem em educá-las para a paz. O mesmo João Paulo II, na sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, em 1° de janeiro de 1979, escolhera como tema “Para alcançar a paz, educar para a paz!”. Nela, ele insistia em três tarefas fundamentais. Primeiro: encher os olhares da juventude com visões de paz, irradiando múltiplos exemplos de paz e demonstrando estima pelas grandes tarefas pacíficas dos dias de hoje. Segundo:  falar uma linguagem de paz, agindo sobre a linguagem para agir sobre o coração e desarmar as ciladas da mesma linguagem. Terceiro: realizar gestos de paz, pois é o pôr em prática a paz que leva à paz. Estes três pontos devem constituir-se em princípios norteadores de todas instituições envolvidas com a formação da juventude, tais como escolas, universidades, famílias, igrejas, meios de comunicação, associações, sindicatos, etc. Se estas instituições não assumirem conscientemente suas responsabilidades como educadoras de paz da juventude, quem o fará? E se a juventude não portar a chama da paz, quem a portará?
Nesta intenção, rezemos a oração oficial desta Jornada Mundial da Juventude:
Ó Pai, enviaste o Teu Filho Eterno para salvar o mundo e escolheste homens e mulheres para que, por Ele, com Ele e n’Ele, proclamassem a Boa-Nova a todas as nações. Concede as graças necessárias para que brilhe no rosto de todos os jovens a alegria de serem, pela força do Espírito, os evangelizadores de que a Igreja precisa no Terceiro Milênio.
Ó Cristo, Redentor da humanidade, Tua imagem de braços abertos no alto do Corcovado acolhe todos os povos. Em Tua oferta pascal, nos conduziste pelo Espírito Santo ao encontro filial com o Pai. Os jovens, que se alimentam da Eucaristia, Te ouvem na Palavra e Te encontram no irmão, necessitam de Tua infinita misericórdia para percorrer os caminhos do mundo como discípulos-missionários da nova evangelização.
Ó Espírito Santo, Amor do Pai e do Filho, com o esplendor da Tua Verdade e com o fogo do Teu Amor, envia Tua Luz sobre todos os jovens para que, impulsionados pela Jornada Mundial da Juventude, levem aos quatro cantos do mundo a fé, a esperança e a caridade, tornando-se grandes construtores da cultura da vida e da paz e os protagonistas de um mundo novo. Amém!
Com amizade,
Dom Irineu Rezende Guimarães
Monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França

Carta Mensal - Junho de 2013

                                                                                       Tournay, 30 de maio de 2013.

   A vocês todos em busca da paz,

   PAZ!

   Neste 3 de junho de 2013, abre-se para assinatura e ratificação o Tratado sobre o Comércio de Armas, com o objetivo de adotar normas para regular e instaurar uma maior transparência nas transferências internacionais de armamentos. Desta maneira, ele visa também prevenir e eliminar o comércio ilícito de armas clássicas e impedir o desvio destas mesmas armas.

   Fruto da mobilização de organizações não-governamentais e de vários países, especialmente o Reino-Unido e a França, seu debate durou sete anos. Após uma intensa negociação, o tratado foi aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2 de abril de 2013. A resolução abrindo o tratado à assinatura recebeu 154 votos favoráveis, três contra (Coreia do Norte, Irã e Síria) e 23 abstenções, entre elas a China, o Egito, a Índia, a Indonésia e a Rússia. O tratado entrará em vigor 90 dias apos a quinquagésima ratificação.

   O comércio de armas representa cerca de 80 bilhões de dólares por ano, com um aumento global de 17 % sobre a última década. Seis países (China, Estados Unidos, França, Israel, Reino-Unido e Rússia) representam 90 % das exportações mundiais de armas novas. A ausência de regras e de controle sobre este comércio constitui uma das causas de várias situações de violência armada, tanto de crimes como de conflitos, freqüentemente em condições de pobreza e desigualdade extremas.

   O tratado abrange todo tipo de transferência internacional (importação, exportação e transporte) e toda transação de armas clássicas. Sob este título incluem-se desde armas leves e de pequeno porte, como um revólver ou um rifle, até aviões e navios de guerra, passando por tanques e veículos blindados de combate, mísseis e lançadores de mísseis, helicópteros de combate e sistemas de artilharia de grande calibre. O tratado institui também um regime de controle nacional para regulamentar a exportação de munições utilizadas pelas armas clássicas, bem como de suas peças e componentes.

   O princípio do tratado é que cada país deve avaliar, antes de toda transação, o risco que essas armas, munições ou componentes sejam usados para cometer ou facilitar violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário – como um genocídio, por exemplo –, ou caiam nas mãos de terroristas ou de criminosos. Em todos esses casos, o país exportador deverá não autorizar a transação.

   Neste mês de junho, sustentemos por nossa prece este novo tratado: que ele seja bem acolhido por toda a comunidade internacional, que seja respeitado e se torne um sinal de um tempo de paz para o mundo. Rezemos assim:

   Ó Deus de Paz, fonte de toda boa obra, Tu que diriges o destino das nações e governas o mundo com teu amor, nós colocamos sob teu olhar este novo tratado internacional, que regula o comércio de armas. Que ele ajude a humanidade a frear a violência e a guerra e diminuir o sofrimento de tantos. Que ele contribua para a paz e para a estabilidade mundial, que ele suscite a cooperação, a transparência e a ação responsável entre as nações. E assim, libertos de todo medo e ódio, possamos construir a confiança recíproca entre os povos, deixando-nos conduzir por teu Espírito, signo e força de paz ! Amém !

                                                     Com amizade,

                                     Dom Irineu Rezende Guimarães
                 Monge beneditino da Abadia Nossa Senhora, Tournay, França